Silêncio alimenta infertilidade
Teresa Sousa| 2007-01-17
Pela primeira vez em Portugal realizou-se um estudo que combina os saberes da medicina, com a geografia e a sociologia. A pressão social faz da infertilidade um problema vivido a dois, em silêncio e sofrimento.
Os avanços das técnicas da reprodução medicamente assistida fazem-nos abrir os olhos de espanto e receio, na antevisão de um maravilhoso mundo novo, que está para lá do nosso entendimento. Mas esta não é mais do que uma realidade paralela, que coabita, sem lhe tocar, com a outra face da infertilidade: silêncio, sofrimento, mistificações e desigualdades tecem a vida dos casais inférteis.
Quantos casais inférteis há em Portugal, qual a incidência das infecções sexualmente transmissíveis, que níveis de sucesso apresentam as clínicas de reprodução medicamente assistida? Não há, no país, respostas concretas para qualquer uma destas questões. Pela primeira vez em Portugal foi realizado um trabalho de investigação multidisciplinar, que junta uma socióloga (Helena Machado) e uma geógrafa (Paula Remoaldo - coordenadora do Projecto) da Universidade do Minho e três médicos do Hospital da Senhora da Oliveira. O tema foi, assim, tratado não só à luz dos olhos da medicina, mas também das ciências sociais.
1129 casais sem filhos
O estudo "A caracterização da infertlidade no concelho de Guimarães (Noroeste de Portugal)", financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, decorreu entre Maio de 2004 e Outubro de 2005. Numa primeira fase, recolheram-se dados dos assentos de casamento e dos assentos de nascimento existentes na Conservatória de Registo Civil de Guimarães, entre 1995 e 1998. Constituiu-se, assim, uma base de dados, identificando 1 129 casais sem filhos, após cinco anos de casamento.
Destes, 122 já tinham filhos, mas haviam sido registados noutra conservatória, e em cinco casos a mulher estava grávida, informação que foi obtida através de carta enviada aos 1 129 casais.
A segunda parte do trabalho consistiu na aplicação de uma entrevista semi-estruturada aos trinta dos casais que aceitaram o convite para serem entrevistados.
Como afirmam as professoras e investigadoras Paula Remoaldo e Helena Machado, "o facto de a infertilidade ser sobretudo encarada como uma questão médica, que cabe aos profissionais de saúde ajudar a ultrapassar com base nos mais recentes avanços tecnológicos da medicina, tem de certo modo relegado para segundo plano os eventuais contributos das ciências sociais na compreensão e caracterização deste fenómeno". Ora, o estudo vem demonstrar, afinal, que os factores sociais e geográficos influenciam os contornos da infertilidade. Como? Através da maior ou menor pressão social exercida sobre o casal, pelo acesso mais ou menos privilegiado que estes têm a consultas de planeamento familiar e fertilidade (a maioria dos cuidados de saúde especializados estão localizados nos grandes centros urbanos) e pelo lado escondido da infertilidade, que os torna elementos desajustados de um modelo social estruturado para famílias com filhos biológicos.
Não é fácil determinar causas específicas para a infertilidade. Em Portugal, é claro um recuo da taxa de natalidade no período após a revolução de Abril de 1974. Os casais passaram a estudar até mais tarde, a atrasar a idade do casamento e a atirar para um futuro próximo a paternidade. Resultado: muitas mulheres decidiram ter o primeiro filho quando o ciclo da fertilidade começa a baixar, aos 31 anos. Mas há outros factores associados. Por exemplo, o início precoce da actividade sexual e o aumento potencial, em consequência, das situações de infecções sexualmente transmissíveis, que são uma das causas possíveis da infertilidade. Nas mulheres, são vários os possíveis motivos da infertilidade: a ausência de ovulação, as disfunções hormonais, os tumores nos ovários, a obstrução nas trompas, as alterações no muco cervical e a existência de tecido uterino na cavidade cervical. Nos homens, as causas clínicas situam-se ao nível da produção de espermatozóides, originados por factores genéticos, hormonais e ambientais. Está provado, por exemplo, que profissões que inflacionam a temperatura dos testículos (motoristas, padeiros, actividades sedentárias) podem causar essa alteração na produção dos espermatozóides.
Infertilidade é algo que se oculta
Nas trinta entrevistas realizadas, Paula Remoaldo e Helena Machado foram palmilhando o quotidiano dos casais. "A infertilidade é algo de que não se fala, que se dissimula e oculta. Sofre-se em silêncio, carregando o peso de um estigma que apenas se partilha com amigos e familiares mais próximos (que nem sempre apoiam os casais inférteis como estes esperavam e desejavam) ou com o profissional de saúde, no contexto da consulta de infertilidade", concluíram.
Mais de metade das mulheres referenciaram o impacto social da infertilidade, assim como a "insensibilidade" de familiares e amigos perante o facto. Os estragos registam-se na vida privada, como na profissional. Muitas das entrevistadas confessaram não dizer à entidade patronal que precisam de faltar porque vão a uma consulta de infertilidade, por lhes faltar coragem para admitir que não ter filhos é uma fatalidade e não uma opção.
Mas antes de esbarrar com todos estes obstáculos, o casal pode, em primeiro lugar, ver-se encurralado em si próprio. "É nítida a informação incompleta que possuem algumas mulheres sobre o conceito de infertilidade, pois não se identificam como inférteis pelo facto de já terem estado grávidas e de já terem `alcançado'", afirmam as investigadoras. Tanto mais que, por vezes, as crenças e os saberes passados de geração em geração parecem ser dominantes sobre os saberes dos profissionais de saúde.
Na espiral do desconforto, juntam-se as queixas sobre o apoio médico. Sete dos casais entrevistados mostram-se decepcionados com a informação médica existente e os cuidados de saúde. E a angústia poderá ir aumentando a par com o esforço empregue no objectivo de ter filhos biológicos. "Com pequenas variações individuais, a tónica dominante é de grande sofrimento e de grande investimento emocional em torno dos tratamentos de infertilidade", declaram Paula Remoaldo e
Helena Machado. Como, aliás, prova o testemunho de uma mulher de 34 anos, entrevistada: "Foi o processo em si que me desgastou, e que me fragilizou... e que me mudou de certa forma um bocado a personalidade e o carácter. Porque, confesso-lhe, eu achava que resolvia tudo... há problemas ao longo da nossa vida que nós vamos ultrapassando e disse: não, eu dou a volta, eu consigo... Isto é um problema, que eu nem consegui, nem dei a volta há seis anos, o que nos vai fragilizando e vai mudando o carácter".
"Sentimo-nos excluídos"
Ao fim de cinco ou mais anos sem filhos, os mais insignificantes actos sociais do dia-a-dia podem ser personificações do constrangimento, como revelam as entrevistas realizadas. "Sinto-me muitas vezes excluída e posta de lado pelo facto de não ter filhos (...). Por exemplo, no Natal há troca de prendas e nós damos a todas as crianças mas os adultos não nos dão a nós.
Ao ponto de nós dizermos: nós vamos lá fazer o quê? Ver os outros felizes? Nós não vamos lá fazer nada. Nestes pequenos momentos sentimo-nos excluídos. (...) Mas não só na família, também na sociedade", relatou uma entrevistada, de 29 anos. "(...) uma cunhada minha disse-me que podíamos ter mais tema de conversa se tivesse um filho. Às vezes [ela] conversa sobre coisas banais, sobre o facto de ter um filho e eu não consigo compreendê-la porque, pronto, não sou mãe...", afirmou outra.
As entrevistas recolhidas vêm reforçar a ideia de que um dos aspectos mais penosos da infertilidade poderá mesmo ser a pressão social exercida, de forma mais ou menos inconsciente, pelo círculo de familiares, amigos e conhecidos e, também, pelo casal. E, neste aspecto, as investigadoras chegaram à conclusão que a mulher se sente mais pressionada do que o homem. "A pressão social para ter filhos é particularmente incidente na mulher, entendendo-se que estas apresentam um impulso biológico para a reprodução, sendo que as mulheres que negam esta tendência ou aquelas que não conseguem conceber são entendidas como desviantes em relação ao que é socialmente esperado", declaram.
As estimativas a nível mundial apontam para a existência de uma taxa de 10% a 15% de casais inférteis, ou seja, sem filhos biológicos após um ano de relações sexuais continuadas e desprotegidas. Estima-se para Portugal uma média similar, não havendo dados completos a nível nacional. O estudo agora realizado, contudo, aponta para valores ligeiramente acima destas estimativas, já que foram avaliados, no concelho de Guimarães, 18% de casais inférteis. A investigação será publicada em livro ainda este ano, estando pendente o financiamento para se avançar para um trabalho a nível nacional, que contará com estas duas investigadoras e com a intervenção do presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, o professor doutor João Silva Carvalho.
Olá! O meu nome é Cláudia Fernandes. Sou psicóloga clínica. Neste momento encontro-me num projecto enorme - o Doutoramento - e o meu tema relaciona-se com a infertilidade e as questões psicológicas associadas.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Encaminhamento para Instituições Privadas
Os primeiros casais em lista de espera para tratamento de infertilidade começam a ser encaminhados para centros privados em Julho, avançou o presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT).
Este anúncio surge dois meses depois de a ministra da Saúde, Ana Jorge, ter anunciado o encaminhamento para instituições privadas dos casais que aguardam por um tratamento há mais de um ano nos serviços públicos. Os primeiros protocolos foram já assinados entre a ARSLVT e o British Hospital e o Instituto Valenciano de Infertilidad, as duas únicas instituições privadas na região autorizadas a prestar cuidados de Procriação Medicamente Assistida (PMA).
O encaminhamento destes utentes vai ser realizado pela Maternidade Alfredo da Costa e pelo Centro Hospitalar Lisboa Norte - Hospital de Santa Maria, os dois centros públicos de PMA na Região de Lisboa e Vale do Tejo. Rui Portugal adiantou que estes protocolos irão permitir o encaminhamento dos primeiros casais, seguindo critérios de ordem clínica, o que deverá acontecer no "próximo mês".
Neste momento há apenas duas instituições autorizadas a fazer tratamentos de PMA, mas Rui Portugal prevê que dentro de "um ou dois meses" existam mais um ou dois centros privados. Entretanto, a ARSLVT chegou a acordo para assinar mais protocolos com duas instituições privadas da região Centro. "Estes seis centros são mais do que suficientes para dar resposta às necessidades, além dos três hospitais públicos (Centro Hospitalar de Lisboa Norte e Maternidade Alfredo da Costa) que têm como objectivo fazer 50 por cento dos tratamentos", sublinhou.
Rui Portugal salientou o "papel fundamental" dos hospitais no sentido de encontrar a articulação com as instituições privadas para fazer a referenciação dos casais e aumentar a capacidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) nesta área. Lembrou ainda que o número de doentes referenciados pelos hospitais integrados na rede de referenciação de infertilidade do Serviço Nacional de Saúde para o privado não pode ultrapassar 50 por cento do objectivo anual de produção fixado em sede de contrato programa.
Segundo a ministra da Saúde, existem 2800 casais inférteis em lista de espera em todo o país, sendo as situações mais graves na região de Lisboa e Vale do Tejo e no Sul, porque apenas existem duas instituições públicas (MAC e Hospital de Santa Maria) para dar resposta a estes casos. O director da MAC, Jorge Branco, adiantou que há 850 casais em lista de espera na maternidade, metade dos quais há mais de um ano, sendo o compromisso da MAC fazer este ano 330 ciclos, 440 no ano seguinte e 600 em 2011.
Com o objectivo de melhorar o acesso dos casais portugueses a consultas e tratamentos de infertilidade, o Ministério da Saúde aprovou o Projecto de Incentivos à Procriação Medicamente Assistida (PMA). Este Projecto visa permitir uma maior capacidade de intervenção no sector público, a organização da oferta e uma melhoria da regulação clínica dos tratamentos para a infertilidade.
24.06.2009 - 08h37 Lusa
Os primeiros casais em lista de espera para tratamento de infertilidade começam a ser encaminhados para centros privados em Julho, avançou o presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT).
Este anúncio surge dois meses depois de a ministra da Saúde, Ana Jorge, ter anunciado o encaminhamento para instituições privadas dos casais que aguardam por um tratamento há mais de um ano nos serviços públicos. Os primeiros protocolos foram já assinados entre a ARSLVT e o British Hospital e o Instituto Valenciano de Infertilidad, as duas únicas instituições privadas na região autorizadas a prestar cuidados de Procriação Medicamente Assistida (PMA).
O encaminhamento destes utentes vai ser realizado pela Maternidade Alfredo da Costa e pelo Centro Hospitalar Lisboa Norte - Hospital de Santa Maria, os dois centros públicos de PMA na Região de Lisboa e Vale do Tejo. Rui Portugal adiantou que estes protocolos irão permitir o encaminhamento dos primeiros casais, seguindo critérios de ordem clínica, o que deverá acontecer no "próximo mês".
Neste momento há apenas duas instituições autorizadas a fazer tratamentos de PMA, mas Rui Portugal prevê que dentro de "um ou dois meses" existam mais um ou dois centros privados. Entretanto, a ARSLVT chegou a acordo para assinar mais protocolos com duas instituições privadas da região Centro. "Estes seis centros são mais do que suficientes para dar resposta às necessidades, além dos três hospitais públicos (Centro Hospitalar de Lisboa Norte e Maternidade Alfredo da Costa) que têm como objectivo fazer 50 por cento dos tratamentos", sublinhou.
Rui Portugal salientou o "papel fundamental" dos hospitais no sentido de encontrar a articulação com as instituições privadas para fazer a referenciação dos casais e aumentar a capacidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) nesta área. Lembrou ainda que o número de doentes referenciados pelos hospitais integrados na rede de referenciação de infertilidade do Serviço Nacional de Saúde para o privado não pode ultrapassar 50 por cento do objectivo anual de produção fixado em sede de contrato programa.
Segundo a ministra da Saúde, existem 2800 casais inférteis em lista de espera em todo o país, sendo as situações mais graves na região de Lisboa e Vale do Tejo e no Sul, porque apenas existem duas instituições públicas (MAC e Hospital de Santa Maria) para dar resposta a estes casos. O director da MAC, Jorge Branco, adiantou que há 850 casais em lista de espera na maternidade, metade dos quais há mais de um ano, sendo o compromisso da MAC fazer este ano 330 ciclos, 440 no ano seguinte e 600 em 2011.
Com o objectivo de melhorar o acesso dos casais portugueses a consultas e tratamentos de infertilidade, o Ministério da Saúde aprovou o Projecto de Incentivos à Procriação Medicamente Assistida (PMA). Este Projecto visa permitir uma maior capacidade de intervenção no sector público, a organização da oferta e uma melhoria da regulação clínica dos tratamentos para a infertilidade.
24.06.2009 - 08h37 Lusa
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